Fragmentos sobre a experiência
Esses dias tenho pensado muito sobre a experiência, o que ela é, o que ela não é, o que pode ser, quando começa, essas coisas. Isso tem surgido por razões variadas. Por um lado, pelo exercício cotidiano da escrita. Por outro, pelo trabalho que estou começando a desenvolver na BP Érico Veríssimo, na Cohab Taipas, com um grupo de senhoras, em que a mola-mestra é a experiência.
Ontem, conversando com meus pais, a conversa trouxe o tema de novo, a tal da experiência, olha só o que ela é. E conversávamos sobre gatos, e percebemos, entre risadas, que experiência é aprender a não levar mais o gato para viajar, seja no sítio, seja na praia, porque a chance de dar besteira e ele se perder pelo mundo é muito grande. Mesmo que a gente morra de vontade de levar ele conosco (e gatos odeiam carro), com pena de deixá-lo sozinho em casa, ou imaginando o quanto ele gostaria de se reencontrar com a natureza.
É também olhar pra trás e se admirar de como foi possível comprar uma Marajó, substituindo o Chevette, pelo fato de que ela tinha um porta-malas grande, que assim permitiria que os filhos pequenos ficassem deitados enquanto se pegava a estrada que levava ao litoral. Tranquilos, deitadinhos, brincando, rindo, cochilando. Nada de cinto, nada de nada. Só leveza. E olha que houve até uma leve batida, na traseira, num engavetamento. Primeiro a batida na frente, o nosso carro batendo em outro, o som brusco e impressionante. Aí, a espera, a espera aflitiva, porque sabíamos que logo (quanto tempo demoraria?) viria um novo carro e bateria na nossa traseira - como bateu, e nós, crianças, lá, no porta-malas, apenas levantamos a cabeça, assustados, depois da batida na frente, e apreensivos esperando a batida que veio por trás e, por sorte, não nos machucou.
É muito mais do que os cabelos brancos que começam a nascer arrepiados no alto da cabeça, negando-se a aceitar qualquer penteado e nos irritando por sua perseverança em se levantar e em brotar cada vez em maior número. É ver nossos alunos já tão longe no tempo, mesmo parecendo que foi outro dia que nós é que tínhamos a idade deles - e isso, por mais bobo e consensual e do senso comum e etc. e tal, não perde a força de nos impressionar. Somos já outra geração, outro tempo, outro tudo... Nós não somos mais tão jovens assim. Chegou a nossa vez. Minha mãe teve 36 anos por muito tempo na minha vida de criança. Eu achava a idade linda e adorava dizer: Minha mãe tem 36! E hoje eu já fiz e já passei dos 36 dela, hoje sou eu a mãe, é meu filho que agora pode dizer: Minha mãe tem 38! Uma idade que é absolutamente vaga quando a gente é criança, porque está tão longe no tempo que não temos como projetar nada, imaginar, nada. É apenas: idade de mãe.
É recuperar a nossa história, na cabeça, e ver quanta coisa já houve - e conseguir mobilizar essas coisas em novos episódios, projetando-os em vivências de seres imaginários, criando o que não houve, resolvendo o que não resolvemos como ou quando queríamos. Ah, se me tivessem dito, lá quando eu tinha 14, 15, 16 anos e queria tanto escrever histórias, que eu podia olhar para o que vivia, para o que eu era e para o que eu já tinha sido quando criança, essa teria sido a melhor lição, o melhor aprendizado. No entanto, eu tentava criar personagens que já fossem profissionais, e imaginava mulheres artistas em seus ateliês, ou fosse lá o que a minha cabeça conseguisse projetar como sendo do "mundo dos adultos" - porque, na adolescência, tudo que se quer é ser adulto.
Se algum professor tivesse me dito: escreva a partir de você. Do que você é, do que é sua vida agora. Suas vontades, seus medos, suas angústias. Isso é a fonte do que você vai criar. Escreva sobre a garotinha que só gostava de tudo vermelho, desde as roupas, até o guarda-chuva, e depois o primeiro estojo, de couro, com um zíper dourado, cheio de elásticos pretos para que se enfiassem os lápis, a borracha, o apontador e todos os lápis de cor. Escreva sobre o medo do mar, sobre a areia quente e fofa que queimava os pés, sobre o medo de abelhas, a cobra que um dia apareceu na vizinhança do prédio na praia, o homem matando, o medo, a rã que apareceu no banheiro, o tombo que você e a amiga deram, sentadas na corrente da garagem, batendo a cabeça no chão de lajota vermelha e a sua mãe não deixando vocês dormirem, vocês sentindo de leve o medo da morte, a morte podia acontecer, se dormissem vocês morreriam, mas o sono vindo cada vez mais gostoso e forte, e talvez já fosse ela, a morte, que vinha para levá-las, tão novas, tão inocentes ainda, e já mortinhas...
Escreva sobre o menino mais velho que um dia falou que apenas a sua amiga era bonita, que você era um desastre completo, e você nunca pôde esquecer isso, por mais que ele fosse um bobo e você soubesse disso. Ou sobre o acidente de carro que sofreu quando era tão pequenina, o carro azul do padrinho capotando e a sua tia com o nariz sangrando, vocês todos num barranco, no mato, e as pessoas de uma casinha lá no meio vindo socorrê-los. Escreva sobre a batida que seu irmão lhe deu com um cabo de vassoura metálico, deixando uma cicatriz no seu pulso direito que nunca mais saiu. Ou sobre o três e meio que tirou numa prova de Português, na terceira série, a caneta vermelha, do mesmo vermelho que você gostava, brilhando na página, enfeiando a folha branca que continha a sua letrinha gorda e hesitante. E a promessa que se fez de que nunca mais ia tirar nota vermelha, que ia aprender tudo sobre verbos, e as tardes e tardes que passou sentada na cama repetindo: Eu amo, tu amas, ele ama, nós amamos, vós amais, eles amam. Eu vendo, tu vendes, ele vende, nós vendemos, vós vendeis, eles vendem...
Escreva sobre os acampamentos da escola, primeiras experiências de viajar sozinha, e o medo que tinha de não saber arrumar direito a sua cama, muito menos a sua mala. O maior pavor era o de, ao final, na hora de voltar, não conseguir fechar a mala, por não saber organizá-la, então a gente sentava em cima dela, brincando e rindo muito, pra ver se espantava o pânico de não dar nada certo e a mãe da gente nos criticar, ou então a tia do acampamento perceber e bronquear. Os morcegos que passavam à noite nas árvores, a emoção de sair de lanternas empunhadas, e o medo de tropeçar na escalada. As trilhas e "escaladas" (devia ser um montinho bem pequeno o que subíamos, mas para mim e para as crianças todas era uma aventura na selva e numa montanha gigante) me davam muito medo, e eu sempre precisava ser ajudada pelas mãos seguras e fortes dos monitores. Não ligava se alguma criança me gozasse, eu tinha medo mesmo. Mas depois chegávamos numa casinha de madeira no meio das árvores, linda, e a gente subia de todo canto por ela e no meio, no segundo andar, tinha um pau fino para a gente descer escorregando, qual bombeiro - era o que a gente imaginava. Chegar naquela casinha valia todo o sacrifício da escalada, a subida inclusive pelas cordas, num trecho, quando tínhamos que ir agarrados nas cordas, pondo um pé de cada vez.
Escreva sobre as festas juninas, quando você adorava dançar quadrilha e, mais que tudo, ser a noivinha, de veuzinho e tudo, entrando na frente de todos da fila, dançando e sonhando que brilhava. Ou sobre as aulas de Educação Física, que você desde pequenina odiava, fazendo cada vez mais de tudo para fugir, até chegar ao colegial, quando a professora já te conhecia desde pequena, e você ficava na quadra, durante o jogo de vôlei, mas se recusava a tentar defender qualquer bola que viesse na sua direção, protesto mudo e inútil pra tentar dar conta do desprezo que sentia por jogos com bola.
Escreva sobre seus sonhos, o que você imagina ser, como imagina, por que imagina, do que tem medo, do que não tem. Escreva, escreva, escreva. Não se preocupe em criar histórias com personagens diferentes de você, por ora. Escreva apenas as suas histórias, as que você viveu, as que ninguém sabe mais do que você, nem ninguém vai poder apontar um dedo e dizer: NÃO FOI ASSIM. E só depois, bem depois, é que você vai ver o que vai fazer com esse material, por enquanto é só a busca da voz, da sua voz, é vencer o medo de passar para o papel o que se é e foi, para só muito depois conseguir jogar tudo isso para outras vidas, inventadas, que vão vindo e surgindo também de dentro de você, de pedaços de você que nem você sabe que tem. E de tudo que foi vendo ao longo dos anos, das pessoas com as quais conviveu, das brigas que teve, as raivas que passou, os medos, os amores.
Tudo aquilo que na hora que era vivido parecia insuportável e você se sentia vergar, tudo - olha só que maravilha - vai ser apenas experiência, possibilidade de jogar no papel, transformando, reinventando, aquela mesma experiência que você sentia tanto que te faltava, lá atrás, quando era menina. Aquela ausência de vida vivida que te incomodava, ela vira excesso, monte de vida, pedaços de lembranças para você juntar do jeito que quiser e criar mundos.
(Se eu conseguir passar isso para meus alunos, estarei feliz e satisfeita.)

Nenhum comentário:
Postar um comentário